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Maringoni: Adeus a um culpado

[Maringoni: Adeus a um culpado]

"Theotônio dos Santos, você é culpado por nos inspirar há mais de quarenta anos."

Caracas, abril de 2004, segundo aniversário do golpe contra Chávez. Em um dos auditórios lotados do teatro Tereza Carreño, no centro da capital, José Vicente Rangel, velho jornalista, referência da luta democrática e vice presidente de Hugo Chávez iniciava uma palestra. Antes dele, tiveram a palavra Marco Aurélio Garcia e José Carlos Monedero, que viria a ser um dos fundadores do Podemos, na Espanha.

Naquela semana, Donald Rumsfeld, secretário de Defesa de George W. Bush, havia dito que Chávez representava uma ameaça ao continente e que seria culpado por distúrbios que acontecessem nos países vizinhos.

Sentei-me ao lado de Theotônio dos Santos, também convidado ao evento.

Rangel inicia sua intervenção:

- Um secretário do Império refere-se à Venezuela em busca de culpados. Pois eu quero dizer a este senhor que temos muitos culpados pelo fato da Venezuela estar seguindo o caminho que seu povo escolheu. Um dos maiores desses culpados está entre nós.

Rangel faz uma pausa, com seu jeito de lorde ingês, do alto de seus quase 80 anos, bebe um gole d'água, e volta à carga.

- O culpado - quero denunciar! - está ali atrás. E aponta para a direção onde nos encontrávamos. Este senhor, prossegue ele, é culpado por nos mostrar que a dependência tem de ser rompida por iniciativas e políticas soberanas! Theotônio dos Santos, você é culpado por nos inspirar há mais de quarenta anos.

Mais de duzentas pessoas aplaudem efusivamente. Theotônio fica de pé e faz uma saudação. Seus olhos ficam vítreos, segurando lágrimas de emoção.

Este culpado nos deixou hoje, aos 81 anos.

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